Jeferson Tenório defende uma literatura brasileira conectada às suas origens
Vencedor do Prêmio Jabuti de 2021 afirma que memória, identidade e reflexão sobre a formação do país são fundamentais para a literatura nacional
Antes de perguntar para onde a literatura brasileira deve seguir, talvez seja necessário perguntar de onde ela veio. Para o escritor Jeferson Tenório, uma obra literária que não encara as origens do país corre o risco de produzir uma imagem incompleta do Brasil e de sua identidade.
“Uma literatura de um país que não reflete sobre suas origens é falha”, afirmou o autor em entrevista ao Jornal da Unesp, publicada em 27 de agosto de 2026. A declaração resume uma preocupação presente em sua trajetória: investigar como a memória, a família, o racismo e as feridas históricas continuam influenciando a vida brasileira contemporânea.
Tenório venceu o Prêmio Jabuti de 2021 na categoria Romance Literário com O avesso da pele, publicado pela Companhia das Letras. O reconhecimento consolidou o escritor como uma das vozes de destaque da literatura brasileira contemporânea, mas sua reflexão sobre as origens vai além da premiação. Ela envolve também o modo como os personagens são construídos, os temas que emergem durante a escrita e o espaço ocupado por autores negros no mercado editorial.
Uma literatura que olha para trás para compreender o presente
Na entrevista à Unesp, Jeferson Tenório relacionou a produção de escritores negros contemporâneos à necessidade de revisitar a formação histórica do Brasil. Para ele, a literatura pode contribuir para a construção de uma identidade nacional quando enfrenta acontecimentos que durante muito tempo foram apagados, suavizados ou tratados de maneira superficial.
Entre esses acontecimentos estão a escravidão, a violência contra os povos originários e a exploração das riquezas do país. O escritor também mencionou a ditadura como uma das feridas históricas ainda não plenamente elaboradas pela sociedade brasileira.
Essa perspectiva não significa transformar o romance em um tratado histórico. Na visão apresentada por Tenório, a literatura pode investigar as consequências desses processos a partir das experiências individuais: relações familiares, desigualdade, violência, exclusão, deslocamentos e tentativas de pertencimento.
É nesse ponto que memória e identidade se encontram. Ao acompanhar a vida de personagens negros, a ficção pode revelar como acontecimentos do passado permanecem presentes nas instituições, nas relações sociais e na maneira como cada pessoa compreende a própria história.
O avesso da pele e a busca pela memória familiar
Em O avesso da pele, o narrador Pedro tenta reconstruir a trajetória do pai depois de sua morte. A investigação familiar conduz o leitor por lembranças, conflitos e experiências marcadas pelo racismo e pela violência policial.
A própria estrutura do romance aproxima a busca pessoal de uma reflexão mais ampla sobre o país. Ao procurar compreender quem foi o pai, Pedro também se depara com as condições sociais que moldaram sua vida. A história familiar, portanto, não aparece isolada: ela está ligada à educação, à desigualdade racial e às formas de violência que atingem pessoas negras no Brasil.
O romance recebeu o primeiro lugar do Jabuti de 2021 na categoria Romance Literário. A premiação foi confirmada na página oficial da Câmara Brasileira do Livro, que registra Jeferson Tenório como vencedor pelo título publicado pela Companhia das Letras.
O reconhecimento também ampliou a circulação da obra e levou o livro a debates em escolas, universidades e espaços de formação de leitores. Ao mesmo tempo, episódios de questionamento e tentativa de retirada da obra de ambientes educacionais mostraram como a representação de temas raciais ainda provoca disputas no país.
Personagens antes dos temas
Outro aspecto importante da declaração de Tenório está em seu processo criativo. Ao Jornal da Unesp, o autor explicou que não costuma começar um romance a partir de um tema previamente definido, como racismo ou violência policial. Seu primeiro movimento é descobrir quem são os personagens, como eles se relacionam com o mundo e quais conflitos carregam.
Os assuntos surgem a partir da trajetória dessas figuras ficcionais. Como seus personagens são negros, essa escolha acaba trazendo para o centro da narrativa experiências sociais relacionadas à raça, à classe, à família e à desigualdade.
Esse método ajuda a evitar que problemas históricos apareçam apenas como ilustrações ou discursos externos à história. Em vez de utilizar o personagem para comprovar uma tese, o escritor permite que os conflitos se desenvolvam dentro da vida cotidiana, com contradições, afetos e decisões individuais.
Tenório também afirmou que seus livros passam por um longo período de maturação interna dos personagens. Segundo ele, Beijo na parede, seu primeiro romance, levou seis anos para ser escrito. O mesmo cuidado esteve presente na elaboração de Estela sem Deus e de De onde eles vêm.
De onde eles vêm: origem, universidade e permanência
Em seu romance mais recente, De onde eles vêm, Tenório desloca o foco para Joaquim, um jovem negro que ingressa na universidade por meio das cotas raciais. A narrativa se passa em Porto Alegre, por volta dos anos 2000, e acompanha não apenas a entrada do personagem no ensino superior, mas também as dificuldades para permanecer nesse espaço.
O livro aborda obstáculos como a falta de dinheiro para o transporte, a distância, as responsabilidades familiares e o olhar de desconfiança de colegas e professores. As cotas aparecem como parte do contexto histórico, mas o centro da narrativa está na formação intelectual e na experiência de um jovem que precisa disputar seu lugar em um ambiente que nem sempre o reconhece como pertencente.
Ao tratar desse percurso, o romance relaciona origem social, educação e mobilidade. A universidade não é apresentada simplesmente como uma porta de entrada para uma vida melhor, mas como um espaço de conflitos, negociações e permanentes provas de legitimidade.
A editora do livro descreve a obra como a história do despertar racial de Joaquim em um ambiente hostil. A trajetória do personagem também dialoga com a experiência de muitos estudantes que foram os primeiros de suas famílias a chegar ao ensino superior.
O que essa visão representa para escritores e leitores
A defesa de uma literatura conectada às origens produz efeitos importantes para quem escreve e para quem lê. Para os escritores, ela reforça a possibilidade de transformar memórias familiares, experiências comunitárias e conflitos históricos em matéria literária sem abrir mão da complexidade estética.
Para os leitores, esse movimento amplia o repertório de histórias disponíveis e permite reconhecer o Brasil por perspectivas que durante muito tempo ficaram à margem do circuito editorial. A literatura não precisa oferecer respostas definitivas sobre a identidade nacional, mas pode formular perguntas que a sociedade ainda evita.
A reflexão também contribui para compreender por que a diversidade na publicação de livros importa. Não se trata apenas de aumentar a presença de determinados autores nas listas de lançamentos. Trata-se de permitir que diferentes experiências participem da construção das imagens que o país produz sobre si mesmo.
Ao defender que a literatura brasileira olhe para suas origens, Jeferson Tenório propõe uma tarefa exigente: enfrentar o passado sem transformá-lo em peça de museu e observar o presente sem esquecer as estruturas que o formaram. É nesse encontro entre memória e criação que novas histórias podem nascer — e ajudar o Brasil a reconhecer aquilo que ainda precisa elaborar.
Fontes consultadas
- “Uma literatura de um país que não reflete sobre suas origens é falha”, afirma vencedor do Prêmio Jabuti — Jornal da Unesp (27/08/2026)
- Premiados do Ano — Prêmio Jabuti 2021 — Prêmio Jabuti / Câmara Brasileira do Livro (Sem data de publicação informada; consulta em 30/08/2026)
- O avesso da pele — Vencedor Jabuti 2021 — Grupo Companhia das Letras (Página consultada em 30/08/2026)
- De onde eles vêm — Jeferson Tenório — Grupo Companhia das Letras (Página consultada em 30/08/2026)
- Onde nascem as histórias? — UOL TAB (23/07/2026)