Luis Turiba: o poeta que fez da palavra uma forma de resistência
Morto em Salvador aos 76 anos, escritor, jornalista e editor cultural deixou uma trajetória marcada pela poesia, pelo jornalismo e pela criação da revista Bric-a-Brac
Alguns escritores constroem uma obra apenas nos livros. Luis Turiba construiu a sua também nas redações, nas revistas, nas políticas culturais e na memória de uma geração que precisou defender a liberdade de expressão. O poeta e jornalista morreu na madrugada de 26 de agosto de 2026, em Salvador, aos 76 anos, após enfrentar complicações graves de saúde.
Conhecido artisticamente como Luis Turiba, Luiz Artur Toribio nasceu em Pernambuco, em 1950, foi criado no Rio de Janeiro e viveu por décadas em Brasília. Sua trajetória aproximou poesia, reportagem, edição, música, audiovisual e ativismo cultural. Ao morrer, deixou cinco filhos, seis netos e uma produção que inclui livros de poemas, crônicas, textos jornalísticos, documentários, revistas e parcerias musicais.
Da reportagem à poesia
Turiba começou a trabalhar como repórter aos 23 anos, no Rio de Janeiro. Passou por veículos como O Globo e a revista Manchete antes de se mudar para Brasília, em 1979, para atuar na sucursal da Gazeta Mercantil. Também trabalhou no Jornal de Brasília e no Correio Braziliense.
O jornalismo não foi apenas uma profissão em sua vida. Foi uma maneira de observar o país, acompanhar suas transformações e registrar personagens e conflitos. Reportagens sobre diferentes regiões brasileiras, a expansão de grandes projetos e a vida política de Brasília ajudaram a formar o olhar que mais tarde apareceria em seus poemas e crônicas.
Seu trabalho recebeu reconhecimento com dois Prêmios Esso de Jornalismo, segundo registros do Ministério da Cultura e de entidades ligadas à imprensa. A atuação jornalística também o levou a entrevistar personalidades da cultura brasileira e a participar de coberturas que ampliaram sua circulação profissional para além do Distrito Federal.
Kiprokó e a construção de uma obra poética
A estreia literária ocorreu em 1977, com o livreto de poemas Kiprokó. A publicação marcou o início de uma produção que nunca se afastou completamente da experiência urbana, da política, da música e da observação do cotidiano.
Ao longo das décadas seguintes, Turiba publicou títulos como Clube do Ócio, Luminares, Realejos, Cadê, Bala, Meiaoito 68 Razões de 68, Quetais, Poeira Cósmica e Desacontecimentos. Em 1998, recebeu o Prêmio Candango de Literatura pelo livro-CD Cadê, obra que evidencia seu interesse por aproximar a palavra escrita de outras linguagens.
A produção de Turiba também alcançou a música. Entre suas parcerias está a letra de “Bico da Torre”, musicada por Renato Matos e gravada por Zélia Duncan e Célia Porto. Essa circulação entre literatura, canção e jornalismo ajuda a compreender a singularidade de seu trabalho: para ele, a poesia não estava isolada na página, mas em diálogo permanente com a vida cultural brasileira.
Bric-a-Brac: uma revista contra o silêncio
Em Brasília, Luis Turiba esteve entre os criadores e editores da Bric-a-Brac, revista de invenção poética que reuniu poesia, artes gráficas, fotografia, entrevistas e reflexão cultural. A publicação surgiu em 1985, no período de redemocratização do país, e teve sua primeira fase marcada pela experimentação estética e pela disposição de ampliar os espaços de circulação da poesia.
A revista foi editada coletivamente por Turiba, João Borges, Lúcia Leão e Luis Eduardo Resende, conhecido como Resa, entre outros colaboradores. Em vez de seguir o modelo de uma publicação literária convencional, a Bric-a-Brac apostou na combinação de linguagens e no diálogo entre artistas, jornalistas, designers, fotógrafos e escritores.
Ao longo de sua trajetória, a revista publicou entrevistas e trabalhos de nomes importantes da cultura brasileira. Sua importância não se restringiu à quantidade de edições: a Bric-a-Brac ajudou a consolidar uma cena de poesia experimental em Brasília e mostrou que uma publicação independente poderia funcionar como espaço de encontro, provocação e memória.
Depois de um longo intervalo, o projeto voltou a circular em 2022 com a edição especial Bric XXII, lançada no contexto das comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. O retorno confirmou a permanência do projeto e sua capacidade de dialogar com novas gerações sem abandonar a experimentação que esteve em sua origem.
Perseguição política e reconhecimento tardio
A história de Turiba também foi atravessada pela repressão da ditadura militar. Ainda jovem, participou do movimento estudantil e se aproximou do Partido Comunista do Brasil. Foi perseguido por razões políticas, preso e submetido a processos e monitoramento pelos órgãos de repressão do Estado.
Em agosto de 2024, a Comissão de Anistia reconheceu sua condição de anistiado político. A decisão considerou a documentação apresentada por Turiba sobre a perseguição sofrida entre 1970 e 1987. Na ocasião, o Estado brasileiro também formalizou um pedido de desculpas.
O reconhecimento ocorreu décadas depois dos fatos e acrescentou uma dimensão importante à leitura de sua obra. A resistência cultural de Turiba não se limitou a discursos políticos: esteve presente na escolha de publicar poesia, criar revistas, estimular encontros e defender a circulação de ideias em momentos de censura e autoritarismo.
Jornalismo e políticas culturais
A relação de Turiba com a administração pública cultural começou em 1985, quando integrou a assessoria de imprensa do recém-criado Ministério da Cultura. Anos mais tarde, retornou à instituição durante a gestão do ministro Gilberto Gil, entre 2002 e 2005, como assessor de comunicação e chefe da Comunicação Social.
Nesse período, participou de ações ligadas à comunicação do ministério, ajudou na concepção dos Pontos de Cultura e produziu documentários como Gil na ONU e A Capoeira no Mundo. Também contribuiu para registrar e divulgar políticas culturais que buscavam ampliar o acesso à produção artística e valorizar manifestações diversas do país.
Essa experiência revela outro aspecto de seu legado: Turiba não foi apenas um observador da cultura brasileira, mas também um agente envolvido na criação de projetos, na formulação de narrativas públicas e na aproximação entre Estado, artistas e comunidades.
O legado de Luis Turiba para escritores independentes
A trajetória de Luis Turiba oferece uma lição especialmente atual para escritores e editores independentes. Sua obra mostra que a publicação literária pode ser, ao mesmo tempo, criação artística, gesto de resistência e construção coletiva.
A Bric-a-Brac nasceu fora dos grandes centros tradicionais do mercado editorial e encontrou na colaboração uma forma de existir. Seus livros circularam em diferentes formatos, e sua atuação profissional combinou redação, edição, música, documentário e políticas públicas. Em vez de separar rigidamente as funções de escritor, jornalista e produtor cultural, Turiba transitou entre elas.
Reconhecido como Cidadão Brasiliense por sua contribuição à cultura da cidade, ele deixou uma marca que ultrapassa a bibliografia. Seu legado está também nas redes de colaboração que ajudou a formar, nos leitores que aproximou da poesia e na defesa persistente da liberdade de criação.
Para quem deseja conhecer sua obra, um caminho possível é começar por Kiprokó, seguir por Cadê e chegar aos livros publicados nas últimas décadas, como Poeira Cósmica e Desacontecimentos. A leitura permite acompanhar não apenas a evolução de um poeta, mas também as mudanças de um país vistas por alguém que fez da palavra uma ferramenta de observação, invenção e resistência.
Luis Turiba morreu em 26 de agosto de 2026, mas sua história permanece aberta em seus poemas, nas páginas da Bric-a-Brac e na memória cultural de Brasília e do Brasil.
Fontes consultadas
- Morre, em Salvador, o poeta e ativista Luis Turiba — Agência Brasil (26/08/2026)
- Nota de pesar: Luis Turiba — Ministério da Cultura (26/08/2026)
- Luís Turiba — Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira (Consulta em 30/08/2026)
- Luís Turiba — PEN Clube do Brasil (Consulta em 30/08/2026)
- BRIC XXII: o renascer de uma invenção poética — Associação Brasileira de Imprensa (13/07/2022)
- Bric a Brac celebra o modernismo — Correio Braziliense (29/05/2022)
- Jornalista Luis Turiba recebe anistia política e desculpas do Estado — IstoÉ Dinheiro, com informações da Agência Brasil (22/08/2024)
- Revista Bric-a-Brac e a poesia experimental em Brasília — Universidade de Brasília (2023)