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Telas e leitura juvenil: o que muda quando os jovens leem em um mundo conectado

31/08/2026

Pesquisas indicam que celulares e redes sociais disputam atenção, mas não explicam sozinhos o afastamento dos livros; acesso, família e identificação com as obras também pesam

Um jovem pode passar horas diante do celular e, ainda assim, continuar sendo leitor. A aparente contradição ajuda a explicar por que o debate sobre telas e leitura precisa ir além da ideia de que uma atividade simplesmente substituiu a outra.

Celulares, redes sociais, jogos on-line e plataformas de vídeo mudaram a maneira como crianças e adolescentes distribuem seu tempo e entram em contato com textos. Ao mesmo tempo, a leitura não desapareceu: ela aparece em pesquisas escolares, mensagens, notícias, fanfics, resenhas, histórias compartilhadas nas redes e livros digitais ou impressos.

O principal desafio está em entender qual leitura está sendo feita, em que suporte, com qual objetivo e em quais condições. Ler uma legenda, pesquisar para uma tarefa, acompanhar uma história em capítulos e mergulhar em um romance exigem níveis diferentes de atenção.

As telas disputam tempo, mas não determinam o hábito

Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 29 de agosto de 2026, dedicada a jovens de 11 a 14 anos, aponta que as telas interferem na disputa pela atenção, mas não definem sozinhas a relação dos adolescentes com os livros. Especialistas ouvidos pelo jornal destacam a influência da família e o acesso a obras capazes de despertar o interesse dos leitores.

Os dados apresentados na reportagem ajudam a iluminar essa transição: na pesquisa realizada em 2024, 81% das pessoas entre 11 e 13 anos foram consideradas leitoras, percentual que caiu para 62% entre aqueles de 14 a 17 anos. A diferença não permite concluir que o celular seja a causa direta da queda. Ela mostra, porém, que a passagem para a adolescência é um período decisivo para a consolidação — ou para a interrupção — do hábito de ler.

A mesma reportagem encontrou forte presença de fantasia, aventura, romance infantojuvenil, quadrinhos e mangás entre as preferências dos adolescentes. Em bibliotecas e equipamentos públicos de São Paulo, a série Diário de um Banana, de Jeff Kinney, esteve entre os títulos mais procurados por jovens de 11 a 14 anos. O dado sugere que a escolha da obra continua sendo central: quando o leitor encontra uma história que reconhece como relevante, divertida ou próxima de seus interesses, a tela deixa de ser a única fonte de entretenimento.

Ler na tela não é uma prática única

A leitura digital reúne comportamentos muito diferentes. Um adolescente pode usar o smartphone para consultar uma palavra, buscar informações para um trabalho, ler uma notícia, acompanhar uma história publicada em capítulos ou conversar sobre um livro em uma comunidade virtual. Essas práticas são legítimas, mas não produzem necessariamente a mesma experiência de uma leitura literária longa e contínua.

Uma pesquisa acadêmica publicada pela Universidade Estadual de Campinas, com observação de 60 jovens durante a navegação na internet, identificou práticas marcadas pela velocidade, pelo acesso direto e pela possibilidade de circular entre páginas e informações. O estudo descreve uma leitura associada à chamada “cultura do atalho”, na qual o leitor localiza rapidamente aquilo que procura e transita entre diferentes conteúdos.

Esse modo de leitura pode ser útil para tarefas informacionais. O problema aparece quando a rapidez se torna o único padrão de contato com textos. Obras literárias, ensaios e materiais escolares complexos exigem tempo para acompanhar argumentos, perceber nuances, lembrar informações anteriores e construir interpretações.

O que as pesquisas dizem sobre papel e tela

O relatório The Impact of Digital Technologies on Students’ Learning, publicado pela OCDE em 2025, reúne estudos sobre o uso de tecnologias digitais na aprendizagem e discute diferenças entre a leitura em telas e no papel. A revisão aponta que a leitura digital oferece conveniência e acesso, mas pode favorecer estratégias de passagem rápida pelo texto, especialmente diante de materiais longos ou complexos.

O documento também apresenta um estudo experimental com 66 participantes de 14 a 67 anos que leram um conto em papel ou em uma tela. Os leitores do papel relataram maior envolvimento reflexivo e imersão na narrativa, enquanto o hábito de ler textos curtos em dispositivos digitais apareceu associado a menor engajamento significativo com o texto literário.

É importante observar os limites desse resultado. A amostra não representa todos os adolescentes, e uma associação não prova que a tela cause uma redução permanente da capacidade de leitura profunda. A conclusão mais prudente é que o suporte e o modo de uso podem influenciar a experiência leitora. Textos literários extensos, por exemplo, podem se beneficiar de ambientes com menos interrupções e maior estabilidade de atenção.

A própria OCDE recomenda uma abordagem equilibrada, que combine alfabetização digital e competências tradicionais de leitura. Em vez de tratar papel e tela como adversários absolutos, a escola pode ensinar o jovem a escolher o suporte adequado para cada objetivo.

O papel do acesso aos livros

Outra análise da OCDE, baseada em dados do PISA 2018, relaciona o acesso a livros impressos em casa, o formato predominante de leitura, o desempenho em leitura e o prazer de ler. O estudo encontrou associações favoráveis entre a leitura em papel — ou uma combinação equilibrada entre papel e meios digitais — e melhores resultados de desempenho e satisfação leitora.

Esses dados também não autorizam uma conclusão causal simples. Ter livros em casa pode estar relacionado a outras condições, como escolaridade dos responsáveis, renda, presença de bibliotecas, incentivo familiar e tempo disponível para ler. Ainda assim, o levantamento reforça uma questão essencial: o debate sobre telas não pode ignorar as desigualdades de acesso ao livro.

No Brasil, a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro em parceria com a Fundação Itaú e com apoio do Ministério da Cultura, entrevistou 5.504 pessoas com mais de cinco anos, em 208 municípios. O levantamento considerou leitores aqueles que haviam lido, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos três meses anteriores. Nesse recorte, 47% da população foi classificada como leitora.

A edição incluiu perguntas sobre literatura em meios digitais, como redes sociais e aplicativos de mensagens. A mudança é importante porque reconhece que a experiência leitora contemporânea não acontece apenas no livro impresso. Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que a existência de textos digitais não resolve, por si só, os obstáculos para a formação de leitores, entre eles a falta de tempo, o acesso limitado e a ausência de estímulo.

Família, escola e mercado editorial: responsabilidades compartilhadas

Para as famílias, formar leitores não significa apenas controlar o tempo de tela. Também envolve dar exemplo, conversar sobre histórias, frequentar bibliotecas, oferecer livros variados e permitir que crianças e adolescentes participem das escolhas. A leitura por prazer dificilmente se sustenta quando todos os títulos são apresentados como obrigação escolar.

Para a escola, o desafio é preservar o contato com obras literárias sem ignorar as práticas digitais dos estudantes. Resenhas em vídeo, clubes de leitura on-line, debates em comunidades virtuais e pesquisas sobre autores podem aproximar o livro do repertório cotidiano dos jovens. Essas ferramentas, contudo, funcionam melhor quando conduzem à leitura da obra, e não quando substituem o contato com ela.

Escritores e editoras também precisam observar essa diversidade de comportamentos. Jovens leitores buscam histórias em diferentes formatos, descobrem autores por recomendações nas redes e valorizam gêneros como fantasia, romance, terror, quadrinhos e mangás. Isso não significa abandonar o livro físico ou transformar toda literatura em conteúdo rápido, mas compreender como a descoberta, a conversa e a circulação das obras acontecem.

O desafio é formar leitores capazes de escolher

A pergunta mais produtiva talvez não seja se as telas estão destruindo a leitura, mas que tipo de leitor está sendo formado em um ambiente de estímulos contínuos. O jovem precisa saber localizar informações rapidamente, avaliar a confiabilidade de um conteúdo e também permanecer diante de um texto que não entrega respostas imediatas.

As evidências disponíveis apontam para uma convivência complexa: as telas podem fragmentar a atenção e favorecer leituras mais rápidas, mas também ampliam o acesso a textos, autores e comunidades de leitores. O hábito literário depende de uma combinação de tempo, interesse, mediação, acesso e condições materiais.

Em vez de declarar uma guerra entre tecnologia e livros, famílias, escolas, bibliotecas, escritores e editoras podem trabalhar para ampliar as possibilidades de leitura. A formação de leitores passa por ensinar que cada suporte tem seus usos — e que algumas histórias ainda pedem justamente aquilo que o fluxo das telas torna mais raro: tempo, silêncio, continuidade e imaginação.

Fontes consultadas