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Convenção da ANL debate formação de leitores e o futuro das livrarias

04/09/2026

Encontro marcado para 2 e 3 de setembro, em São Paulo, reúne profissionais do livro para discutir mediação cultural, comunidades leitoras e os desafios da atividade livreira

Uma livraria pode ser muito mais do que o lugar onde se compra um livro. Ela pode funcionar como ponto de encontro, espaço de descoberta, ambiente de convivência e porta de entrada para novos leitores. É a partir dessa perspectiva que a 34ª Convenção Nacional de Livrarias, promovida pela Associação Nacional de Livrarias (ANL), reúne o setor nos dias 2 e 3 de setembro de 2026, em São Paulo.

Com o tema “A Livraria como Lugar de Encontro”, o evento será realizado no Auditório B do Distrito Anhembi e reunirá livreiros, editores, pesquisadores e outros profissionais da cadeia do livro. A programação coloca em primeiro plano uma questão decisiva para o mercado editorial: como fortalecer a relação entre livrarias, leitores e comunidades em um cenário de mudanças nos hábitos de consumo e acesso à cultura?

Uma convenção pensada a partir da experiência dos livreiros

Segundo a programação oficial da ANL, esta edição foi organizada em quatro eixos: mediação cultural; relação das livrarias com as cidades e os territórios; estratégias de aproximação com os leitores; e experiências nacionais e internacionais voltadas ao desenvolvimento do setor.

Uma característica importante é a participação de profissionais de livrarias independentes e de rua na curadoria do encontro. A proposta desloca parte da discussão para quem acompanha diariamente os desafios de manter uma livraria aberta, formar público, escolher um acervo e criar vínculos duradouros com a comunidade.

Essa perspectiva aparece já na abertura da programação, com a mesa “Por que as livrarias nascem – e por que elas fecham?”. O debate terá a participação de Elisa Quadros, da Lucia Livraria, e Guilherme Ramos Martinato, da Livraria do Arco da Velha, com mediação de Monica Carvalho, da Livraria da Tarde.

O título da conversa resume uma das principais tensões da atividade livreira: abrir uma loja pode ser um projeto cultural e empresarial, mas permanecer de portas abertas exige planejamento, capacidade de adaptação, relacionamento com o público e integração com o território onde a livraria está instalada.

Livrarias, cidades e espaços de convivência

O primeiro dia da convenção também discutirá a presença das livrarias no espaço urbano. Entre os destaques estão a apresentação sobre o mapa das livrarias de rua de São Paulo e a Noite das Livrarias, com João Varella, da Banca Tatuí e da Livraria Gráfica, e o painel “Livrarias e o espaço urbano”, com Yara Hwang, da Livraria Aigo, e o urbanista Nabil Bonduki.

A programação sugere que a sobrevivência das livrarias não depende apenas da venda de exemplares. A localização, a circulação de pessoas, a relação com outros equipamentos culturais e a capacidade de transformar a loja em um espaço acolhedor também entram nessa equação.

Esse debate interessa diretamente aos leitores. Uma livraria integrada ao bairro pode ampliar o acesso a obras que não aparecem nas buscas mais populares, apresentar autores independentes, organizar encontros e criar oportunidades para que pessoas com diferentes repertórios se aproximem dos livros.

Clubes de leitura e mediação cultural

No segundo dia, a convenção concentrará as discussões nas estratégias de aproximação entre livrarias e comunidades leitoras. A mesa “Clubes de leitura como ferramenta de engajamento” abordará uma prática que vem ganhando espaço em livrarias, bibliotecas, escolas e projetos culturais.

Clubes de leitura podem cumprir funções diferentes. Eles ajudam a criar regularidade no contato com os livros, estimulam a troca de interpretações e reduzem a sensação de isolamento que muitas vezes acompanha quem deseja ler mais, mas não encontra companhia ou orientação.

Para as livrarias, esses grupos também podem representar uma forma de construir relacionamento para além da compra pontual. O leitor deixa de ser apenas consumidor de um título e passa a participar de uma comunidade, contribuindo para a circulação de recomendações, debates e descobertas.

A mediação cultural, eixo central da convenção, envolve justamente essa capacidade de aproximar pessoas, obras e repertórios. O livreiro pode atuar como alguém que orienta escolhas, apresenta autores, contextualiza catálogos e ajuda o visitante a encontrar um livro que não necessariamente procurava.

Infância, formação de leitores e novos públicos

Outro destaque da programação é a mesa “Livrarias infantis e formação de leitores”, que reunirá Jessica Nolte, da Casa Cosmos, e Julia Souto, da Livraria Miúda, com mediação de Kin Guerra, da Solisluna e da Terra Libris.

A discussão sobre livrarias infantis amplia o entendimento de formação de leitores. O vínculo com os livros começa antes da autonomia leitora e envolve famílias, educadores, mediadores, ilustradores, bibliotecários e os próprios espaços de circulação da literatura.

Uma livraria especializada pode oferecer curadoria para diferentes idades, promover atividades para crianças e orientar adultos na escolha de obras adequadas a interesses e momentos distintos. Mais do que estimular a compra, esse trabalho pode contribuir para que o livro seja percebido como parte da vida cotidiana.

Para escritores e editoras, a existência de livrarias capazes de apresentar novos títulos é especialmente relevante. Catálogos pequenos, autores estreantes e projetos independentes muitas vezes dependem de uma mediação qualificada para chegar ao público certo.

O que experiências de outros países podem ensinar

A programação também inclui uma dimensão internacional. Laura Forni, da Cámara Argentina de Librerías Independientes, participará de debates sobre a mobilização das livrarias independentes argentinas e sobre a relação entre livrarias e comunidades na América Latina.

A troca regional permite observar que muitos desafios atravessam fronteiras: a pressão sobre os pequenos estabelecimentos, a necessidade de formar público, a busca por políticas de proteção à atividade e a importância da organização coletiva.

O objetivo, conforme a proposta divulgada pela ANL, não é importar soluções prontas, mas colocar experiências diferentes em contato. Cada país possui regras, hábitos de leitura, estruturas de distribuição e condições econômicas próprias. Ainda assim, iniciativas de cooperação podem inspirar novas formas de defesa e valorização das livrarias.

Feiras, descontos e a decisão de compra

Outro debate previsto trata da relação entre feiras, descontos e decisão de compra. A mesa reunirá representantes da Editora 34, da Festa do Livro da USP, de A Feira do Livro e da Livraria Eiffel.

O tema é relevante porque feiras e eventos literários aproximam leitores de uma grande variedade de títulos, mas também levantam questões sobre preço, sustentabilidade da cadeia produtiva e equilíbrio entre diferentes canais de venda.

Para o leitor, descontos podem ser um incentivo importante. Para editoras e livrarias, porém, a formação de preço precisa considerar custos de produção, distribuição, equipe, aluguel, divulgação e manutenção do negócio. A discussão proposta pela convenção pode ajudar a tornar mais visível essa complexidade.

Um debate que ainda está por acontecer

Como a 34ª Convenção Nacional de Livrarias será realizada em 2 e 3 de setembro de 2026, ainda não é possível afirmar quais conclusões serão apresentadas ou quais medidas resultarão do encontro. O que já está confirmado é a escolha de uma pauta que conecta cultura, negócios, educação e vida urbana.

Ao colocar a livraria no centro da conversa, a ANL propõe olhar para esses estabelecimentos como parte de uma infraestrutura cultural. São espaços que podem favorecer o encontro entre leitores e autores, entre diferentes gerações e entre obras que dificilmente se encontrariam em uma busca automática.

Para quem escreve, publica ou procura novos livros, acompanhar esse debate é também entender como as histórias chegam às pessoas. Formar leitores e fortalecer livrarias são tarefas diferentes, mas complementares. Quando uma comunidade encontra um espaço para descobrir, conversar e escolher seus livros, toda a cadeia editorial pode se tornar mais próxima, diversa e sustentável.

Fontes consultadas