Kobo rejeitou 45% dos livros autopublicados enviados em 2025; IA e qualidade entram no centro do debate
Declaração do CEO da Rakuten Kobo não significa que 45% dos títulos tenham sido comprovadamente gerados por inteligência artificial
A Rakuten Kobo rejeitou 45% dos livros autopublicados enviados à plataforma em 2025, segundo declaração de Michael Tamblyn, presidente e CEO da empresa. O volume, descrito por ele como equivalente a centenas de milhares de títulos, foi associado principalmente a obras que pareciam ter sido produzidas com inteligência artificial e que também apresentavam baixa qualidade editorial. O dado foi divulgado em um artigo publicado pela Publishing Perspectives em 10 de junho de 2026, adaptado de uma palestra apresentada em 21 de abril, durante a Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. (publishingperspectives.com)
A informação exige uma distinção importante: os 45% correspondem ao total de livros recusados pela Kobo Writing Life, serviço de autopublicação da Kobo. Não significam que 45% dos títulos tenham sido comprovadamente gerados por IA. A própria formulação divulgada pela empresa indica que a maioria das rejeições foi relacionada, segundo sua avaliação, a livros produzidos com auxílio de inteligência artificial e considerados insuficientes em qualidade. (publishingperspectives.com)
O que a Kobo afirma ter encontrado
De acordo com Tamblyn, a Kobo recebe milhares de livros digitais todos os dias por meio do Kobo Writing Life. Nesse fluxo, a empresa teria identificado um crescimento de obras que aparentavam ser geradas por IA ou produzidas com forte auxílio dessas ferramentas. O problema, segundo o executivo, não seria apenas a tecnologia utilizada, mas a combinação entre produção automatizada em escala e resultado editorial fraco.
Na avaliação apresentada pela Kobo, livros com erros, desenvolvimento insuficiente, problemas de coerência ou sinais de produção em massa poderiam gerar frustração nos leitores, pedidos de reembolso e desgaste para a própria plataforma. Por isso, a empresa afirma considerar legítima a rejeição de títulos que não atendam a padrões mínimos de qualidade, independentemente de serem autopublicados ou provenientes de editoras tradicionais. (publishingperspectives.com)
A cobertura do veículo especializado francês Livres Hebdo, publicada em 30 de junho de 2026, reforçou essa interpretação: o percentual se refere aos depósitos recusados, enquanto a relação com a IA foi apresentada como uma explicação atribuída à Kobo, e não como uma comprovação independente de autoria automatizada. (livreshebdo.fr)
A política da Kobo não é uma regra criada em 2026
A política de conteúdo da Rakuten Kobo, cuja última atualização indicada na página consultada é de 5 de outubro de 2023, já prevê a possibilidade de rejeitar materiais de baixa qualidade, incompletos ou que não cumpram os padrões da plataforma. O documento também inclui entre os conteúdos restritos aqueles total ou parcialmente criados por algoritmos de geração de texto. (kobo.com)
Isso não equivale a dizer que todo livro que utiliza uma ferramenta de IA seja automaticamente recusado. A política estabelece uma prerrogativa de rejeição, mas não apresenta, na página consultada, uma classificação detalhada para diferentes níveis de assistência tecnológica. Também não informa como o percentual de 45% foi calculado nem qual parcela das recusas foi atribuída especificamente ao uso de IA.
Essa diferença é relevante para autores independentes. Uma ferramenta pode ser utilizada para organizar notas, resumir material de pesquisa, revisar pontuação ou testar possibilidades de redação. Outra situação é delegar a um sistema a criação substancial do texto e publicar o resultado sem revisão, apuração, edição ou responsabilidade autoral compatíveis com um livro profissional.
O desafio de detectar inteligência artificial
O próprio Michael Tamblyn reconheceu que a detecção de textos gerados por IA apresenta limitações. Segundo o artigo publicado pela Publishing Perspectives, ferramentas avaliadas pela Kobo confundiram textos humanos com textos produzidos por máquinas e também fizeram o movimento inverso. Além disso, os sistemas analisados não seriam confiáveis para determinar qual porcentagem de uma obra foi criada com assistência automatizada. (publishingperspectives.com)
Esse ponto impede conclusões simplistas. Um resultado de detector não deve ser tratado automaticamente como prova de autoria artificial, plágio ou fraude. A análise de um manuscrito precisa considerar o texto, o processo de produção, a documentação do autor, a revisão editorial e os demais critérios previstos pela plataforma ou pela editora.
Para escritores, a consequência prática é preservar registros do trabalho: versões anteriores dos capítulos, anotações, referências utilizadas, decisões de revisão e histórico de edição. Essa documentação não garante a aceitação de um livro, mas pode ajudar a demonstrar o processo criativo caso surjam dúvidas sobre a autoria ou sobre a origem do conteúdo.
Transparência, qualidade e responsabilidade autoral
A discussão provocada pela Kobo desloca o debate de uma pergunta binária — “pode ou não pode usar IA?” — para questões mais concretas: qual foi o papel da ferramenta, quem tomou as decisões criativas, como o texto foi revisado e o resultado oferece valor real ao leitor?
Para autores independentes, a transparência deve começar antes da publicação. É importante verificar as regras de cada plataforma, conferir se há exigência de declaração sobre o uso de IA e não apresentar como experiência própria uma pesquisa, uma tradução, uma análise ou um depoimento que não tenha sido efetivamente realizado pelo autor.
Também é necessário revisar informações factuais, nomes, datas, citações e referências. Sistemas generativos podem produzir respostas plausíveis, mas incorretas. Em não ficção, biografias, história, saúde, direito e educação, a conferência das fontes é parte essencial do trabalho editorial. Em ficção, a revisão continua indispensável para evitar repetições, inconsistências de voz, personagens pouco desenvolvidos e estruturas narrativas previsíveis.
O que muda para o mercado editorial
A decisão anunciada pela Kobo mostra que as plataformas estão tentando responder a um problema de escala: a entrada de grandes volumes de conteúdo pode dificultar a descoberta de obras originais e aumentar o risco de experiências ruins para os leitores. A própria empresa descreveu o dilema como uma escolha entre priorizar exclusivamente a oferta ao leitor ou proteger também a comunidade formada por autores, editores e demais profissionais do livro. (publishingperspectives.com)
Ao mesmo tempo, uma política baseada em suspeitas pode atingir autores que utilizam recursos digitais de maneira limitada e legítima. Por isso, critérios claros, canais de contestação e avaliação humana continuam importantes. A declaração da Kobo não informa quantos autores contestaram rejeições, quantos títulos foram posteriormente aceitos ou qual é a taxa de falsos positivos do processo.
O caso, portanto, não comprova que a inteligência artificial esteja proibida na autopublicação nem que toda obra com algum tipo de assistência tecnológica será barrada. Ele sinaliza, porém, que qualidade, autoria e transparência passaram a ser observadas com mais atenção pelas plataformas de distribuição.
Como autores podem reduzir riscos
- Leia a política de conteúdo e as regras de submissão da plataforma antes de enviar o livro.
- Use ferramentas de IA como apoio delimitado, sem transferir integralmente a criação e a revisão do texto.
- Faça edição humana completa, verificando estilo, coerência, originalidade, fatos e referências.
- Guarde versões, notas e materiais que documentem o processo de escrita.
- Não utilize informações, citações ou imagens cuja origem não possa ser confirmada.
- Declare o uso de IA quando a plataforma, a editora ou o contrato exigir transparência.
O número de 45% chama atenção, mas a lição editorial mais segura é outra: publicar com rapidez não substitui escrever, revisar e responder pelo conteúdo. Em um mercado com ferramentas cada vez mais acessíveis, a autoria humana será reconhecida menos pela simples ausência de tecnologia e mais pela qualidade das escolhas, pela transparência do processo e pelo compromisso com o leitor.
Fontes consultadas
- ‘Plutonium, or Salt?’ When It Comes to Books, How Much AI Is Too Much? — Publishing Perspectives (10 de junho de 2026)
- Intelligence artificielle : en 2025, Kobo a refusé près d’un livre autoédité sur deux — Livres Hebdo (30 de junho de 2026)
- Rakuten Kobo Content Policy — Rakuten Kobo (5 de outubro de 2023, última atualização indicada na página)
- AI, eBooks and eReading: Managing the Bad, Finding the Good / Keynote — Frankfurter Buchmesse (21 de abril de 2026)