Livrarias ampliam presença física e testam novos caminhos para o mercado de leitura
Expansão do Grupo Livrarias Curitiba, abertura da Libris em Porto Alegre e crescimento do varejo de livros indicam oportunidades, mas não comprovam recuperação geral do setor
A expansão do Grupo Livrarias Curitiba para o Rio Grande do Sul colocou em evidência uma mudança importante no varejo de livros: mesmo diante da concorrência do comércio eletrônico e dos livros digitais, algumas redes voltam a investir em lojas físicas, eventos e experiências presenciais.
Com 63 anos de história, o grupo inaugurou em 2026 sua primeira unidade no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, sob a marca Libris. Segundo a Exame, a empresa encerrou 2025 com receita bruta de R$ 385 milhões e projeta superar R$ 420 milhões em 2026. A previsão é empresarial, portanto ainda não representa um resultado realizado.
A rede informa ter 27 lojas em funcionamento e planeja chegar a 33 unidades até 2027. O movimento ocorre em um momento de crescimento do varejo de livros, mas também de forte transformação no modo como leitores descobrem, compram e compartilham obras.
Uma nova livraria em Porto Alegre
A Libris foi instalada no Shopping Praia de Belas, em Porto Alegre. A abertura havia sido anunciada em junho pelo Jornal do Comércio, que descreveu a nova unidade como a 27ª operação do grupo e destacou a intenção de promover contações de histórias, sessões de autógrafos e atividades voltadas ao público local.
A unidade reúne livros, papelaria, brinquedos, jogos, mangás, itens de tecnologia e produtos relacionados à cultura pop. De acordo com a reportagem da Exame, a loja ocupa 478 metros quadrados, recebeu investimento informado de R$ 1,3 milhão e gerou 16 empregos diretos.
A escolha da marca Libris está ligada ao plano de expansão nacional. Os nomes Livrarias Curitiba e Livrarias Catarinense possuem forte associação regional, enquanto a nova bandeira foi pensada para ser utilizada em diferentes estados. A empresa também avalia uma possível transição gradual de marcas no futuro, sem abandonar imediatamente a identificação construída pelas operações tradicionais.
Livraria como ponto de encontro
O projeto da Libris mostra que a loja física deixou de ser apenas um espaço de exposição e venda de livros. A estratégia combina acervo, papelaria, jogos, entretenimento e programação cultural para estimular a permanência do público e criar motivos para visitar a livraria mesmo quando não existe uma compra planejada.
Entre as atividades mencionadas pelas fontes estão encontros de leitores, sessões de autógrafos, contações de histórias e eventos relacionados à cultura pop. Para autores independentes, esse tipo de programação pode representar uma possibilidade de aproximação com leitores e comunidades locais.
Essa possibilidade, porém, não deve ser confundida com uma garantia de aumento de vendas ou de visibilidade. As fontes consultadas confirmam a intenção de abrir espaço para autores e eventos, mas não apresentam dados que meçam o impacto específico dessas iniciativas sobre livros independentes.
O desempenho do mercado de livros
O movimento de expansão ocorre em um mercado que apresentou crescimento em 2025. Segundo dados do Painel do Varejo de Livros, conduzido pela Nielsen BookScan e divulgados pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros, o setor comercializou 60,33 milhões de exemplares e movimentou R$ 3,09 bilhões no ano.
O levantamento é relevante para compreender o comportamento do varejo monitorado, mas não representa necessariamente todo o mercado editorial brasileiro. Também não mede diretamente a situação de autores independentes, editoras de pequeno porte ou livrarias que não estejam incluídas no universo acompanhado.
Além disso, o crescimento de uma rede específica não permite concluir que todas as livrarias físicas estejam se recuperando. O setor continua marcado por custos de operação, concorrência por preço, mudanças no comportamento dos consumidores e desafios de distribuição.
Diversificação para sustentar a operação
Uma das respostas encontradas pelo Grupo Livrarias Curitiba foi ampliar o portfólio. Conforme a Exame, 26,36% da receita da empresa em 2025 veio de produtos que não são livros. O catálogo inclui papelaria, brinquedos, tecnologia, jogos, presentes, mangás e itens voltados ao público geek.
A estratégia procura reduzir a dependência da venda de livros e aumentar as ocasiões de consumo. Ao mesmo tempo, preserva a livraria como centro da experiência, utilizando os produtos complementares para atrair diferentes faixas etárias e perfis de consumidores.
Para autores e pequenas editoras, esse cenário reforça a importância de compreender como seus livros podem participar de uma curadoria mais ampla. A presença em uma loja não depende apenas da existência de um ponto físico, mas também de negociação, distribuição, disponibilidade de estoque, interesse do público e capacidade de divulgação.
O que a expansão pode significar para autores independentes
A abertura de novas livrarias amplia, em tese, os espaços nos quais leitores podem descobrir obras. Também cria oportunidades para lançamentos, conversas com escritores e ações culturais fora dos grandes centros tradicionalmente associados ao mercado editorial.
O benefício potencial é especialmente relevante para autores independentes, que muitas vezes dependem de relações diretas com leitores, eventos regionais e redes de circulação alternativas. Uma programação local pode ajudar a conectar escritores a comunidades específicas e criar experiências que não são reproduzidas com a mesma intensidade nas plataformas digitais.
Mas a expansão física não elimina os obstáculos do setor. Para que um livro independente chegue às prateleiras, é necessário resolver questões como distribuição, consignação, reposição, divulgação e seleção de catálogo. Por isso, a abertura de lojas deve ser vista como uma oportunidade possível, não como solução automática para a comercialização de livros.
Um mercado em transformação
O caso do Grupo Livrarias Curitiba revela uma tentativa de combinar tradição, presença física e diversificação. A expansão da Libris em Porto Alegre mostra que ainda há espaço para novas operações quando elas encontram localização, público e modelo de negócio adequados.
O próximo desafio será transformar o crescimento das lojas em relacionamento duradouro com leitores. Para o mercado editorial, isso significa observar não apenas quantas livrarias são abertas, mas também que tipo de acervo elas oferecem, quais autores conseguem participar de suas atividades e como esses espaços contribuem para a formação de novos leitores.
Fontes consultadas
- ‘Ler voltou a ser chique’: aos 63 anos, rede abre novas livrarias e acelera rumo aos R$ 420 milhões — Exame (16 de outubro de 2026)
- Rede de livrarias paranaense com 60 anos de história abrirá em shopping de Porto Alegre — Jornal do Comércio (3 de junho de 2026)
- Porto Alegre ganha primeira livraria de grupo curitibano com história de 60 anos — GZH (30 de julho de 2026)
- Nossas lojas — Grupo Livrarias Curitiba (Acesso verificado em outubro de 2026)
- Mercado livreiro finaliza 2025 com crescimento, diz SNEL — PublishNews (28 de janeiro de 2026)