🎁  PerSe é 100% gratuita para autores independentes. Sem mensalidades. Sem pegadinhas.Feita por autores, para autores. ♥
PerSe

Campanha leva quase meio milhão de livros a presídios do Reino Unido

19/10/2026

Iniciativa da Reading Agency, apoiada pelo escritor Lee Child, distribuirá 11 títulos em unidades prisionais e promoverá oficinas de leitura e escrita

Quase meio milhão de livros serão distribuídos neste outono nas prisões da Inglaterra, do País de Gales, da Escócia e da Irlanda do Norte. A campanha é realizada pela Reading Agency, por meio do programa Quick Reads, e tem o apoio do escritor britânico Lee Child, autor da série protagonizada por Jack Reacher e primeiro laureado de leitura em prisões do Reino Unido.

A proposta é colocar um livro em cada cela do sistema prisional, além de ampliar o acervo das bibliotecas das unidades. Ao todo, serão distribuídos 11 títulos curtos, escolhidos com a participação de pessoas privadas de liberdade e funcionários dos presídios. A iniciativa também prevê oficinas conduzidas por autores, atividades de escrita criativa, conteúdos para a National Prison Radio e materiais de apoio para bibliotecas, equipes educacionais e mediadores de leitura. (theguardian.com)

Leitura como parte da reabilitação

Lee Child afirmou que o acesso aos livros pode ajudar a enfrentar o chamado “efeito porta giratória”: pessoas que deixam a prisão, encontram dificuldades para reorganizar a vida fora dela e acabam retornando ao sistema prisional. O escritor defendeu que melhorar as habilidades de leitura não deve ser visto como uma medida branda diante da criminalidade, mas como uma ação prática de reabilitação.

Na avaliação apresentada por Child ao The Guardian, a baixa proficiência leitora pode se somar a outros obstáculos enfrentados após a saída da prisão. Encontrar trabalho já pode ser mais difícil para quem possui antecedentes; compreender contratos de aluguel, contas e comunicados oficiais também se torna um desafio quando a leitura é limitada. A campanha, portanto, procura relacionar o livro não apenas ao entretenimento, mas também à autonomia cotidiana.

Os dados oficiais mais recentes citados na reportagem ajudam a dimensionar o problema. Segundo o Ministério da Justiça britânico, 65% dos resultados de avaliações iniciais de inglês realizadas em prisões públicas da Inglaterra, no ano de 2024–2025, estavam entre os níveis de entrada 1 e 3. Esses níveis ficam abaixo do padrão esperado de um estudante típico do GCSE, exame equivalente ao final da educação secundária britânica. (gov.uk)

O mesmo relatório registra que a educação prisional pode oferecer conhecimentos e habilidades importantes para a busca de emprego após a libertação. O documento também afirma que pessoas que participam de atividades educacionais apresentam menor probabilidade de reincidência, embora esse dado se refira à educação prisional de forma ampla, e não especificamente à distribuição de livros do Quick Reads. (gov.uk)

Livros curtos, mas não simplificados

Um dos desafios da campanha é alcançar pessoas que não se consideram leitoras ou que tiveram experiências negativas com os livros durante a vida escolar. De acordo com Lee Child, muitos presos relatam que os livros apresentados na escola eram desinteressantes. O Quick Reads tenta responder a essa rejeição com textos breves, mas escritos por autores reconhecidos e voltados a diferentes interesses.

A seleção inclui crime, thriller, memórias, bem-estar e um guia de escrita criativa. Entre os títulos citados estão High Heat, de Lee Child; Cell One, do escritor nigeriano Leye Adenle; Darkness Rising, de AA Dhand; My Name Is Why, de Lemn Sissay; Today Everything Changes, de Andy McNab; e The Mind Manual, do médico e autor Alex George.

Também participam da coleção escritoras e escritores como Dreda Say Mitchell, Fiona Cummins, Cathy Rentzenbrink e Alex Wheatle. A variedade de gêneros é uma decisão importante: oferecer apenas um tipo de narrativa poderia limitar as possibilidades de identificação do público. Para quem está retomando o contato com a leitura, encontrar um tema atraente pode ser o primeiro passo para estabelecer uma prática regular.

A escolha dos leitores como estratégia

A participação de presos e funcionários na seleção dos títulos é um dos aspectos centrais do projeto. Para Karen Napier, presidente-executiva da Reading Agency, a iniciativa foi estruturada para ampliar a escolha das pessoas sobre o que desejam ler. A lógica é simples: o acesso ao livro tende a ser mais significativo quando o leitor encontra uma obra que desperta curiosidade, identificação ou vontade de continuar.

O escritor AA Dhand, autor de um dos títulos selecionados, afirmou que os livros devem ser acessíveis a todas as pessoas, independentemente das circunstâncias ou da relação anterior que mantiveram com a leitura. Na reportagem, ele associou a experiência literária ao desenvolvimento da confiança, da empatia e da possibilidade de enxergar o mundo e a si mesmo de outras maneiras. (theguardian.com)

Essa perspectiva amplia o debate sobre políticas de leitura. Distribuir livros não resolve, sozinho, problemas educacionais, sociais ou econômicos. Também não permite afirmar antecipadamente que a campanha reduzirá a reincidência criminal. O que o projeto oferece é uma combinação de acesso, escolha, mediação e atividades complementares que pode fortalecer programas educacionais já existentes.

O papel dos escritores e dos projetos editoriais

A campanha mostra como autores podem participar de ações de formação de leitores sem restringir sua atuação à publicação ou à divulgação de seus próprios livros. Lee Child tem realizado visitas a presídios desde o início de seu trabalho como laureado de leitura, enquanto outros autores estão envolvidos em oficinas e atividades de escrita.

Para escritores independentes, a iniciativa também reforça a importância de pensar em formatos, linguagem e temas capazes de alcançar leitores com diferentes níveis de familiaridade com os livros. Textos mais curtos, edições acessíveis, clubes de leitura e ações em bibliotecas podem aproximar a literatura de públicos que historicamente ficaram fora do circuito editorial tradicional.

Isso não significa reduzir a literatura a uma ferramenta utilitária. Uma narrativa pode oferecer informação e aprendizado, mas também imaginação, companhia, humor, suspense e espaço para reflexão. Em ambientes marcados pelo isolamento, a experiência de ler pode cumprir funções diversas, desde o desenvolvimento de habilidades até a criação de uma relação pessoal com uma história.

Uma iniciativa que depende de continuidade

A distribuição prevista para o outono de 2026 é o ponto mais visível do projeto, mas seus resultados dependerão da continuidade das ações. O acesso aos livros precisa ser acompanhado por bibliotecas em funcionamento, profissionais preparados, atividades de mediação e oportunidades para que os leitores conversem sobre o que leram ou experimentem novos gêneros.

O projeto da Reading Agency combina a entrega direta de livros com oficinas, rádio, recursos educacionais e apoio às bibliotecas prisionais. Essa articulação reconhece que formar leitores exige mais do que disponibilizar exemplares: é necessário criar condições para que cada pessoa encontre tempo, orientação e liberdade de escolha dentro das possibilidades do ambiente prisional.

Ao levar quase meio milhão de livros para presídios de quatro territórios do Reino Unido, a campanha coloca a leitura no centro de uma discussão social mais ampla. A pergunta não é apenas quantos livros podem ser distribuídos, mas que oportunidades surgem quando uma pessoa tem acesso a uma história que consegue ler, deseja terminar e talvez queira compartilhar.

Fontes consultadas