Roma transforma o amor pelos livros em experiência cultural
Ranking da Holafly coloca a capital italiana no topo entre cidades literárias, com 326 livrarias, 87 bibliotecas e 897 roteiros literários
Roma foi apontada como a melhor cidade do mundo para experiências literárias no ranking Best Cities for Passion-Led Travel 2026, elaborado pela Holafly. A capital italiana recebeu 79,6 pontos na categoria dedicada à literatura, à frente de Berlim e Londres.
O resultado não significa que exista um consenso universal sobre qual é a cidade mais literária do planeta. Trata-se de uma classificação turística produzida pela Holafly, empresa comercial de serviços de internet móvel para viajantes. Ainda assim, o levantamento ajuda a observar como uma cidade pode transformar livros, bibliotecas, livrarias e memórias de escritores em experiências culturais acessíveis ao público. (esim.holafly.com)
Uma cidade avaliada pelo que oferece aos leitores
A pesquisa analisou 50 cidades em cinco categorias relacionadas a viagens motivadas por interesses específicos: cultura, música, esportes, gastronomia e literatura. Na categoria literária, a metodologia combinou dados de plataformas como Tripadvisor e OpenStreetMap para contabilizar livrarias, bibliotecas e passeios relacionados à literatura.
Em Roma, foram identificadas 326 livrarias, 87 bibliotecas e 897 roteiros literários. A quantidade de passeios foi o principal destaque numérico da cidade e, segundo a Holafly, o maior registro entre os destinos analisados. Os dados foram calculados a partir de cadastros e referências disponíveis nessas plataformas, e não de um censo independente criado exclusivamente para medir a vida literária romana. (esim.holafly.com)
Berlim ficou em segundo lugar na categoria, com 53,7 pontos, seguida por Londres, com 49,6. A capital alemã apareceu com 418 livrarias, 44 bibliotecas e 46 roteiros literários na cobertura da Exame. Londres, por sua vez, liderou em quantidade de livrarias, com 875 estabelecimentos, mas obteve uma pontuação literária menor no índice. (exame.com)
Quando o patrimônio vira percurso de leitura
O diferencial de Roma não está apenas na quantidade de endereços. A cidade também reúne espaços capazes de conectar o leitor a diferentes períodos da história literária.
A Biblioteca Angelica, próxima à Piazza Navona, é apresentada nas reportagens como uma das referências do levantamento. Seu acervo começou a se formar em 1604, e a instituição preserva obras raras, incluindo um manuscrito da Divina Comédia. A Antica Libreria Cascianelli, fundada em 1909, acrescenta ao roteiro a experiência de uma livraria de livros antigos, mantida por gerações de livreiros e instalada em um espaço com elementos históricos preservados. (exame.com)
Outro endereço associado à cidade é a Keats-Shelley House, na Piazza di Spagna. O local funciona como museu e memorial dedicado a John Keats, Percy Bysshe Shelley e Lord Byron. A presença de casas-museu, bibliotecas históricas, livrarias especializadas e cafés frequentados por escritores amplia a ideia de visita literária: o leitor não apenas compra um livro, mas percorre os lugares que ajudam a dar contexto às obras e às trajetórias de seus autores. (exame.com)
O que os números revelam — e o que não revelam
Um ranking baseado em quantidade de estabelecimentos e atividades pode mostrar a infraestrutura disponível para quem deseja construir uma viagem em torno dos livros. Ele também evidencia como a literatura pode ser apresentada como uma forma de turismo cultural, com roteiros temáticos, visitas guiadas, experiências autoguiadas e espaços de convivência.
Mas os números precisam ser interpretados com cautela. A presença de 897 roteiros não significa necessariamente que existam 897 experiências únicas, permanentes ou exclusivamente literárias. Da mesma forma, contar livrarias e bibliotecas não permite concluir, por si só, que Roma tenha a comunidade leitora mais ativa do mundo ou que todos os seus espaços tenham o mesmo alcance cultural.
Como os dados dependem de plataformas diferentes, os resultados podem variar de acordo com os critérios de cadastro, a atualização das informações e a delimitação geográfica utilizada. A própria classificação deve ser entendida como um retrato específico, baseado na metodologia da Holafly, e não como uma avaliação definitiva da qualidade da vida literária de cada cidade. (esim.holafly.com)
Uma inspiração para comunidades leitoras
Mesmo com essas limitações, o caso de Roma oferece uma reflexão útil para leitores, escritores e profissionais do livro. Uma comunidade literária não depende apenas de grandes eventos ou de instituições reconhecidas internacionalmente. Ela também se forma pela combinação de espaços cotidianos: livrarias independentes, bibliotecas abertas ao público, centros culturais, museus, cafés, clubes de leitura e percursos que aproximam a literatura da experiência urbana.
Para autores independentes, essa visão ajuda a pensar em novas formas de circulação e descoberta. Uma obra pode encontrar leitores em uma livraria de bairro, em uma conversa organizada por uma biblioteca, em um roteiro sobre determinado gênero ou em uma atividade que relacione literatura e memória local. A existência desses espaços não garante o sucesso de um livro ou de um escritor, mas cria oportunidades para que encontros aconteçam.
Também há uma lição para cidades que desejam fortalecer seus próprios ecossistemas de leitura: não basta preservar livros dentro de instituições. É preciso criar caminhos para que as pessoas encontrem esses livros, reconheçam seus autores e participem de experiências coletivas em torno da literatura.
Mais do que visitar uma cidade, ler um lugar
Ao colocar Roma no topo de sua categoria literária, a Holafly apresenta a cidade como um destino em que história, patrimônio e leitura podem ser combinados. A proposta é transformar o deslocamento pela cidade em uma forma de interpretação: visitar uma biblioteca, entrar em uma livraria antiga, conhecer a casa de um poeta ou seguir os passos de um escritor passa a fazer parte da experiência de leitura.
O ranking não encerra a discussão sobre qual cidade é mais literária. Ele, porém, chama atenção para uma pergunta importante: o que uma cidade pode fazer para que os livros deixem de ser apenas objetos nas estantes e se tornem parte da vida cultural, dos percursos urbanos e das relações entre leitores e autores?
Fontes consultadas
- Best Cities for Passion-Led Travel 2026 — Holafly (29 de maio de 2026)
- A cidade eleita a melhor do mundo para quem ama livros — Exame (16 de outubro de 2026)
- This City Was Named Best in the World for Book Lovers—With 326 Bookstores, 87 Libraries, and Nearly 900 Literary Tours — Travel + Leisure (25 de setembro de 2026)