{"id":173,"date":"2026-08-30T09:36:44","date_gmt":"2026-08-30T12:36:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.perse.com.br\/?p=173"},"modified":"2026-08-30T09:36:44","modified_gmt":"2026-08-30T12:36:44","slug":"jeferson-tenorio-literatura-brasileira-origens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/2026\/08\/30\/jeferson-tenorio-literatura-brasileira-origens\/","title":{"rendered":"Jeferson Ten\u00f3rio defende uma literatura brasileira conectada \u00e0s suas origens"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vencedor do Pr\u00eamio Jabuti de 2021 afirma que mem\u00f3ria, identidade e reflex\u00e3o sobre a forma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds s\u00e3o fundamentais para a literatura nacional<\/strong><\/p>\n<p>Antes de perguntar para onde a literatura brasileira deve seguir, talvez seja necess\u00e1rio perguntar de onde ela veio. Para o escritor Jeferson Ten\u00f3rio, uma obra liter\u00e1ria que n\u00e3o encara as origens do pa\u00eds corre o risco de produzir uma imagem incompleta do Brasil e de sua identidade.<\/p>\n<p>\u201cUma literatura de um pa\u00eds que n\u00e3o reflete sobre suas origens \u00e9 falha\u201d, afirmou o autor em entrevista ao <strong>Jornal da Unesp<\/strong>, publicada em 27 de agosto de 2026. A declara\u00e7\u00e3o resume uma preocupa\u00e7\u00e3o presente em sua trajet\u00f3ria: investigar como a mem\u00f3ria, a fam\u00edlia, o racismo e as feridas hist\u00f3ricas continuam influenciando a vida brasileira contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Ten\u00f3rio venceu o Pr\u00eamio Jabuti de 2021 na categoria Romance Liter\u00e1rio com <em>O avesso da pele<\/em>, publicado pela Companhia das Letras. O reconhecimento consolidou o escritor como uma das vozes de destaque da literatura brasileira contempor\u00e2nea, mas sua reflex\u00e3o sobre as origens vai al\u00e9m da premia\u00e7\u00e3o. Ela envolve tamb\u00e9m o modo como os personagens s\u00e3o constru\u00eddos, os temas que emergem durante a escrita e o espa\u00e7o ocupado por autores negros no mercado editorial.<\/p>\n<h2>Uma literatura que olha para tr\u00e1s para compreender o presente<\/h2>\n<p>Na entrevista \u00e0 Unesp, Jeferson Ten\u00f3rio relacionou a produ\u00e7\u00e3o de escritores negros contempor\u00e2neos \u00e0 necessidade de revisitar a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Brasil. Para ele, a literatura pode contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional quando enfrenta acontecimentos que durante muito tempo foram apagados, suavizados ou tratados de maneira superficial.<\/p>\n<p>Entre esses acontecimentos est\u00e3o a escravid\u00e3o, a viol\u00eancia contra os povos origin\u00e1rios e a explora\u00e7\u00e3o das riquezas do pa\u00eds. O escritor tamb\u00e9m mencionou a ditadura como uma das feridas hist\u00f3ricas ainda n\u00e3o plenamente elaboradas pela sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Essa perspectiva n\u00e3o significa transformar o romance em um tratado hist\u00f3rico. Na vis\u00e3o apresentada por Ten\u00f3rio, a literatura pode investigar as consequ\u00eancias desses processos a partir das experi\u00eancias individuais: rela\u00e7\u00f5es familiares, desigualdade, viol\u00eancia, exclus\u00e3o, deslocamentos e tentativas de pertencimento.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que mem\u00f3ria e identidade se encontram. Ao acompanhar a vida de personagens negros, a fic\u00e7\u00e3o pode revelar como acontecimentos do passado permanecem presentes nas institui\u00e7\u00f5es, nas rela\u00e7\u00f5es sociais e na maneira como cada pessoa compreende a pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<h2>O avesso da pele e a busca pela mem\u00f3ria familiar<\/h2>\n<p>Em <em>O avesso da pele<\/em>, o narrador Pedro tenta reconstruir a trajet\u00f3ria do pai depois de sua morte. A investiga\u00e7\u00e3o familiar conduz o leitor por lembran\u00e7as, conflitos e experi\u00eancias marcadas pelo racismo e pela viol\u00eancia policial.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria estrutura do romance aproxima a busca pessoal de uma reflex\u00e3o mais ampla sobre o pa\u00eds. Ao procurar compreender quem foi o pai, Pedro tamb\u00e9m se depara com as condi\u00e7\u00f5es sociais que moldaram sua vida. A hist\u00f3ria familiar, portanto, n\u00e3o aparece isolada: ela est\u00e1 ligada \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 desigualdade racial e \u00e0s formas de viol\u00eancia que atingem pessoas negras no Brasil.<\/p>\n<p>O romance recebeu o primeiro lugar do Jabuti de 2021 na categoria Romance Liter\u00e1rio. A premia\u00e7\u00e3o foi confirmada na p\u00e1gina oficial da C\u00e2mara Brasileira do Livro, que registra Jeferson Ten\u00f3rio como vencedor pelo t\u00edtulo publicado pela Companhia das Letras.<\/p>\n<p>O reconhecimento tamb\u00e9m ampliou a circula\u00e7\u00e3o da obra e levou o livro a debates em escolas, universidades e espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o de leitores. Ao mesmo tempo, epis\u00f3dios de questionamento e tentativa de retirada da obra de ambientes educacionais mostraram como a representa\u00e7\u00e3o de temas raciais ainda provoca disputas no pa\u00eds.<\/p>\n<h2>Personagens antes dos temas<\/h2>\n<p>Outro aspecto importante da declara\u00e7\u00e3o de Ten\u00f3rio est\u00e1 em seu processo criativo. Ao <strong>Jornal da Unesp<\/strong>, o autor explicou que n\u00e3o costuma come\u00e7ar um romance a partir de um tema previamente definido, como racismo ou viol\u00eancia policial. Seu primeiro movimento \u00e9 descobrir quem s\u00e3o os personagens, como eles se relacionam com o mundo e quais conflitos carregam.<\/p>\n<p>Os assuntos surgem a partir da trajet\u00f3ria dessas figuras ficcionais. Como seus personagens s\u00e3o negros, essa escolha acaba trazendo para o centro da narrativa experi\u00eancias sociais relacionadas \u00e0 ra\u00e7a, \u00e0 classe, \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 desigualdade.<\/p>\n<p>Esse m\u00e9todo ajuda a evitar que problemas hist\u00f3ricos apare\u00e7am apenas como ilustra\u00e7\u00f5es ou discursos externos \u00e0 hist\u00f3ria. Em vez de utilizar o personagem para comprovar uma tese, o escritor permite que os conflitos se desenvolvam dentro da vida cotidiana, com contradi\u00e7\u00f5es, afetos e decis\u00f5es individuais.<\/p>\n<p>Ten\u00f3rio tamb\u00e9m afirmou que seus livros passam por um longo per\u00edodo de matura\u00e7\u00e3o interna dos personagens. Segundo ele, <em>Beijo na parede<\/em>, seu primeiro romance, levou seis anos para ser escrito. O mesmo cuidado esteve presente na elabora\u00e7\u00e3o de <em>Estela sem Deus<\/em> e de <em>De onde eles v\u00eam<\/em>.<\/p>\n<h2>De onde eles v\u00eam: origem, universidade e perman\u00eancia<\/h2>\n<p>Em seu romance mais recente, <em>De onde eles v\u00eam<\/em>, Ten\u00f3rio desloca o foco para Joaquim, um jovem negro que ingressa na universidade por meio das cotas raciais. A narrativa se passa em Porto Alegre, por volta dos anos 2000, e acompanha n\u00e3o apenas a entrada do personagem no ensino superior, mas tamb\u00e9m as dificuldades para permanecer nesse espa\u00e7o.<\/p>\n<p>O livro aborda obst\u00e1culos como a falta de dinheiro para o transporte, a dist\u00e2ncia, as responsabilidades familiares e o olhar de desconfian\u00e7a de colegas e professores. As cotas aparecem como parte do contexto hist\u00f3rico, mas o centro da narrativa est\u00e1 na forma\u00e7\u00e3o intelectual e na experi\u00eancia de um jovem que precisa disputar seu lugar em um ambiente que nem sempre o reconhece como pertencente.<\/p>\n<p>Ao tratar desse percurso, o romance relaciona origem social, educa\u00e7\u00e3o e mobilidade. A universidade n\u00e3o \u00e9 apresentada simplesmente como uma porta de entrada para uma vida melhor, mas como um espa\u00e7o de conflitos, negocia\u00e7\u00f5es e permanentes provas de legitimidade.<\/p>\n<p>A editora do livro descreve a obra como a hist\u00f3ria do despertar racial de Joaquim em um ambiente hostil. A trajet\u00f3ria do personagem tamb\u00e9m dialoga com a experi\u00eancia de muitos estudantes que foram os primeiros de suas fam\u00edlias a chegar ao ensino superior.<\/p>\n<h2>O que essa vis\u00e3o representa para escritores e leitores<\/h2>\n<p>A defesa de uma literatura conectada \u00e0s origens produz efeitos importantes para quem escreve e para quem l\u00ea. Para os escritores, ela refor\u00e7a a possibilidade de transformar mem\u00f3rias familiares, experi\u00eancias comunit\u00e1rias e conflitos hist\u00f3ricos em mat\u00e9ria liter\u00e1ria sem abrir m\u00e3o da complexidade est\u00e9tica.<\/p>\n<p>Para os leitores, esse movimento amplia o repert\u00f3rio de hist\u00f3rias dispon\u00edveis e permite reconhecer o Brasil por perspectivas que durante muito tempo ficaram \u00e0 margem do circuito editorial. A literatura n\u00e3o precisa oferecer respostas definitivas sobre a identidade nacional, mas pode formular perguntas que a sociedade ainda evita.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o tamb\u00e9m contribui para compreender por que a diversidade na publica\u00e7\u00e3o de livros importa. N\u00e3o se trata apenas de aumentar a presen\u00e7a de determinados autores nas listas de lan\u00e7amentos. Trata-se de permitir que diferentes experi\u00eancias participem da constru\u00e7\u00e3o das imagens que o pa\u00eds produz sobre si mesmo.<\/p>\n<p>Ao defender que a literatura brasileira olhe para suas origens, Jeferson Ten\u00f3rio prop\u00f5e uma tarefa exigente: enfrentar o passado sem transform\u00e1-lo em pe\u00e7a de museu e observar o presente sem esquecer as estruturas que o formaram. \u00c9 nesse encontro entre mem\u00f3ria e cria\u00e7\u00e3o que novas hist\u00f3rias podem nascer \u2014 e ajudar o Brasil a reconhecer aquilo que ainda precisa elaborar.<\/p>\n<h2>Fontes consultadas<\/h2>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/jornal.unesp.br\/2026\/08\/27\/uma-literatura-de-um-pais-que-nao-reflete-sobre-suas-origens-e-falha-afirma-vencedor-do-premio-jabuti\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201cUma literatura de um pa\u00eds que n\u00e3o reflete sobre suas origens \u00e9 falha\u201d, afirma vencedor do Pr\u00eamio Jabuti<\/a> \u2014 Jornal da Unesp (27\/08\/2026)<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.premiojabuti.com.br\/jabuti\/premiados-por-edicao\/premiacao\/?ano=2021\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Premiados do Ano \u2014 Pr\u00eamio Jabuti 2021<\/a> \u2014 Pr\u00eamio Jabuti \/ C\u00e2mara Brasileira do Livro (Sem data de publica\u00e7\u00e3o informada; consulta em 30\/08\/2026)<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/livro\/9788535933390\/o-avesso-da-pele-vencedor-jabuti-2021\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O avesso da pele \u2014 Vencedor Jabuti 2021<\/a> \u2014 Grupo Companhia das Letras (P\u00e1gina consultada em 30\/08\/2026)<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/n.companhiadasletras.com.br\/livro\/9788535939378\/de-onde-eles-vem\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">De onde eles v\u00eam \u2014 Jeferson Ten\u00f3rio<\/a> \u2014 Grupo Companhia das Letras (P\u00e1gina consultada em 30\/08\/2026)<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/tab.uol.com.br\/noticias\/redacao\/2026\/07\/23\/onde-nascem-as-historias.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Onde nascem as hist\u00f3rias?<\/a> \u2014 UOL TAB (23\/07\/2026)<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"perse-post-category\"><a href=\"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/category\/escritores\/\">Escritores<\/a><\/div>\n<p>Vencedor do Jabuti de 2021, Jeferson Ten\u00f3rio relaciona literatura brasileira, mem\u00f3ria, identidade e reflex\u00e3o sobre as origens do pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":172,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-173","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-escritores"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=173"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/173\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":174,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/173\/revisions\/174"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/172"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}