{"id":201,"date":"2026-08-31T21:47:21","date_gmt":"2026-09-01T00:47:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.perse.com.br\/?p=201"},"modified":"2026-08-31T21:47:21","modified_gmt":"2026-09-01T00:47:21","slug":"telas-e-leitura-juvenil-habitos-dos-jovens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/2026\/08\/31\/telas-e-leitura-juvenil-habitos-dos-jovens\/","title":{"rendered":"Telas e leitura juvenil: o que muda quando os jovens leem em um mundo conectado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pesquisas indicam que celulares e redes sociais disputam aten\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o explicam sozinhos o afastamento dos livros; acesso, fam\u00edlia e identifica\u00e7\u00e3o com as obras tamb\u00e9m pesam<\/strong><\/p>\n<p>Um jovem pode passar horas diante do celular e, ainda assim, continuar sendo leitor. A aparente contradi\u00e7\u00e3o ajuda a explicar por que o debate sobre telas e leitura precisa ir al\u00e9m da ideia de que uma atividade simplesmente substituiu a outra.<\/p>\n<p>Celulares, redes sociais, jogos on-line e plataformas de v\u00eddeo mudaram a maneira como crian\u00e7as e adolescentes distribuem seu tempo e entram em contato com textos. Ao mesmo tempo, a leitura n\u00e3o desapareceu: ela aparece em pesquisas escolares, mensagens, not\u00edcias, fanfics, resenhas, hist\u00f3rias compartilhadas nas redes e livros digitais ou impressos.<\/p>\n<p>O principal desafio est\u00e1 em entender <strong>qual leitura est\u00e1 sendo feita, em que suporte, com qual objetivo e em quais condi\u00e7\u00f5es<\/strong>. Ler uma legenda, pesquisar para uma tarefa, acompanhar uma hist\u00f3ria em cap\u00edtulos e mergulhar em um romance exigem n\u00edveis diferentes de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>As telas disputam tempo, mas n\u00e3o determinam o h\u00e1bito<\/h2>\n<p>Uma reportagem publicada pela <em>Folha de S.Paulo<\/em> em 29 de agosto de 2026, dedicada a jovens de 11 a 14 anos, aponta que as telas interferem na disputa pela aten\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o definem sozinhas a rela\u00e7\u00e3o dos adolescentes com os livros. Especialistas ouvidos pelo jornal destacam a influ\u00eancia da fam\u00edlia e o acesso a obras capazes de despertar o interesse dos leitores.<\/p>\n<p>Os dados apresentados na reportagem ajudam a iluminar essa transi\u00e7\u00e3o: na pesquisa realizada em 2024, 81% das pessoas entre 11 e 13 anos foram consideradas leitoras, percentual que caiu para 62% entre aqueles de 14 a 17 anos. A diferen\u00e7a n\u00e3o permite concluir que o celular seja a causa direta da queda. Ela mostra, por\u00e9m, que a passagem para a adolesc\u00eancia \u00e9 um per\u00edodo decisivo para a consolida\u00e7\u00e3o \u2014 ou para a interrup\u00e7\u00e3o \u2014 do h\u00e1bito de ler.<\/p>\n<p>A mesma reportagem encontrou forte presen\u00e7a de fantasia, aventura, romance infantojuvenil, quadrinhos e mang\u00e1s entre as prefer\u00eancias dos adolescentes. Em bibliotecas e equipamentos p\u00fablicos de S\u00e3o Paulo, a s\u00e9rie <em>Di\u00e1rio de um Banana<\/em>, de Jeff Kinney, esteve entre os t\u00edtulos mais procurados por jovens de 11 a 14 anos. O dado sugere que a escolha da obra continua sendo central: quando o leitor encontra uma hist\u00f3ria que reconhece como relevante, divertida ou pr\u00f3xima de seus interesses, a tela deixa de ser a \u00fanica fonte de entretenimento.<\/p>\n<h2>Ler na tela n\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica \u00fanica<\/h2>\n<p>A leitura digital re\u00fane comportamentos muito diferentes. Um adolescente pode usar o smartphone para consultar uma palavra, buscar informa\u00e7\u00f5es para um trabalho, ler uma not\u00edcia, acompanhar uma hist\u00f3ria publicada em cap\u00edtulos ou conversar sobre um livro em uma comunidade virtual. Essas pr\u00e1ticas s\u00e3o leg\u00edtimas, mas n\u00e3o produzem necessariamente a mesma experi\u00eancia de uma leitura liter\u00e1ria longa e cont\u00ednua.<\/p>\n<p>Uma pesquisa acad\u00eamica publicada pela Universidade Estadual de Campinas, com observa\u00e7\u00e3o de 60 jovens durante a navega\u00e7\u00e3o na internet, identificou pr\u00e1ticas marcadas pela velocidade, pelo acesso direto e pela possibilidade de circular entre p\u00e1ginas e informa\u00e7\u00f5es. O estudo descreve uma leitura associada \u00e0 chamada \u201ccultura do atalho\u201d, na qual o leitor localiza rapidamente aquilo que procura e transita entre diferentes conte\u00fados.<\/p>\n<p>Esse modo de leitura pode ser \u00fatil para tarefas informacionais. O problema aparece quando a rapidez se torna o \u00fanico padr\u00e3o de contato com textos. Obras liter\u00e1rias, ensaios e materiais escolares complexos exigem tempo para acompanhar argumentos, perceber nuances, lembrar informa\u00e7\u00f5es anteriores e construir interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2>O que as pesquisas dizem sobre papel e tela<\/h2>\n<p>O relat\u00f3rio <em>The Impact of Digital Technologies on Students\u2019 Learning<\/em>, publicado pela OCDE em 2025, re\u00fane estudos sobre o uso de tecnologias digitais na aprendizagem e discute diferen\u00e7as entre a leitura em telas e no papel. A revis\u00e3o aponta que a leitura digital oferece conveni\u00eancia e acesso, mas pode favorecer estrat\u00e9gias de passagem r\u00e1pida pelo texto, especialmente diante de materiais longos ou complexos.<\/p>\n<p>O documento tamb\u00e9m apresenta um estudo experimental com 66 participantes de 14 a 67 anos que leram um conto em papel ou em uma tela. Os leitores do papel relataram maior envolvimento reflexivo e imers\u00e3o na narrativa, enquanto o h\u00e1bito de ler textos curtos em dispositivos digitais apareceu associado a menor engajamento significativo com o texto liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 importante observar os limites desse resultado. A amostra n\u00e3o representa todos os adolescentes, e uma associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o prova que a tela cause uma redu\u00e7\u00e3o permanente da capacidade de leitura profunda. A conclus\u00e3o mais prudente \u00e9 que o suporte e o modo de uso podem influenciar a experi\u00eancia leitora. Textos liter\u00e1rios extensos, por exemplo, podem se beneficiar de ambientes com menos interrup\u00e7\u00f5es e maior estabilidade de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria OCDE recomenda uma abordagem equilibrada, que combine alfabetiza\u00e7\u00e3o digital e compet\u00eancias tradicionais de leitura. Em vez de tratar papel e tela como advers\u00e1rios absolutos, a escola pode ensinar o jovem a escolher o suporte adequado para cada objetivo.<\/p>\n<h2>O papel do acesso aos livros<\/h2>\n<p>Outra an\u00e1lise da OCDE, baseada em dados do PISA 2018, relaciona o acesso a livros impressos em casa, o formato predominante de leitura, o desempenho em leitura e o prazer de ler. O estudo encontrou associa\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis entre a leitura em papel \u2014 ou uma combina\u00e7\u00e3o equilibrada entre papel e meios digitais \u2014 e melhores resultados de desempenho e satisfa\u00e7\u00e3o leitora.<\/p>\n<p>Esses dados tamb\u00e9m n\u00e3o autorizam uma conclus\u00e3o causal simples. Ter livros em casa pode estar relacionado a outras condi\u00e7\u00f5es, como escolaridade dos respons\u00e1veis, renda, presen\u00e7a de bibliotecas, incentivo familiar e tempo dispon\u00edvel para ler. Ainda assim, o levantamento refor\u00e7a uma quest\u00e3o essencial: o debate sobre telas n\u00e3o pode ignorar as desigualdades de acesso ao livro.<\/p>\n<p>No Brasil, a 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o da pesquisa <em>Retratos da Leitura no Brasil<\/em>, realizada em 2024 pelo Instituto Pr\u00f3-Livro em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Ita\u00fa e com apoio do Minist\u00e9rio da Cultura, entrevistou 5.504 pessoas com mais de cinco anos, em 208 munic\u00edpios. O levantamento considerou leitores aqueles que haviam lido, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos tr\u00eas meses anteriores. Nesse recorte, 47% da popula\u00e7\u00e3o foi classificada como leitora.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o incluiu perguntas sobre literatura em meios digitais, como redes sociais e aplicativos de mensagens. A mudan\u00e7a \u00e9 importante porque reconhece que a experi\u00eancia leitora contempor\u00e2nea n\u00e3o acontece apenas no livro impresso. Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que a exist\u00eancia de textos digitais n\u00e3o resolve, por si s\u00f3, os obst\u00e1culos para a forma\u00e7\u00e3o de leitores, entre eles a falta de tempo, o acesso limitado e a aus\u00eancia de est\u00edmulo.<\/p>\n<h2>Fam\u00edlia, escola e mercado editorial: responsabilidades compartilhadas<\/h2>\n<p>Para as fam\u00edlias, formar leitores n\u00e3o significa apenas controlar o tempo de tela. Tamb\u00e9m envolve dar exemplo, conversar sobre hist\u00f3rias, frequentar bibliotecas, oferecer livros variados e permitir que crian\u00e7as e adolescentes participem das escolhas. A leitura por prazer dificilmente se sustenta quando todos os t\u00edtulos s\u00e3o apresentados como obriga\u00e7\u00e3o escolar.<\/p>\n<p>Para a escola, o desafio \u00e9 preservar o contato com obras liter\u00e1rias sem ignorar as pr\u00e1ticas digitais dos estudantes. Resenhas em v\u00eddeo, clubes de leitura on-line, debates em comunidades virtuais e pesquisas sobre autores podem aproximar o livro do repert\u00f3rio cotidiano dos jovens. Essas ferramentas, contudo, funcionam melhor quando conduzem \u00e0 leitura da obra, e n\u00e3o quando substituem o contato com ela.<\/p>\n<p>Escritores e editoras tamb\u00e9m precisam observar essa diversidade de comportamentos. Jovens leitores buscam hist\u00f3rias em diferentes formatos, descobrem autores por recomenda\u00e7\u00f5es nas redes e valorizam g\u00eaneros como fantasia, romance, terror, quadrinhos e mang\u00e1s. Isso n\u00e3o significa abandonar o livro f\u00edsico ou transformar toda literatura em conte\u00fado r\u00e1pido, mas compreender como a descoberta, a conversa e a circula\u00e7\u00e3o das obras acontecem.<\/p>\n<h2>O desafio \u00e9 formar leitores capazes de escolher<\/h2>\n<p>A pergunta mais produtiva talvez n\u00e3o seja se as telas est\u00e3o destruindo a leitura, mas que tipo de leitor est\u00e1 sendo formado em um ambiente de est\u00edmulos cont\u00ednuos. O jovem precisa saber localizar informa\u00e7\u00f5es rapidamente, avaliar a confiabilidade de um conte\u00fado e tamb\u00e9m permanecer diante de um texto que n\u00e3o entrega respostas imediatas.<\/p>\n<p>As evid\u00eancias dispon\u00edveis apontam para uma conviv\u00eancia complexa: as telas podem fragmentar a aten\u00e7\u00e3o e favorecer leituras mais r\u00e1pidas, mas tamb\u00e9m ampliam o acesso a textos, autores e comunidades de leitores. O h\u00e1bito liter\u00e1rio depende de uma combina\u00e7\u00e3o de tempo, interesse, media\u00e7\u00e3o, acesso e condi\u00e7\u00f5es materiais.<\/p>\n<p>Em vez de declarar uma guerra entre tecnologia e livros, fam\u00edlias, escolas, bibliotecas, escritores e editoras podem trabalhar para ampliar as possibilidades de leitura. A forma\u00e7\u00e3o de leitores passa por ensinar que cada suporte tem seus usos \u2014 e que algumas hist\u00f3rias ainda pedem justamente aquilo que o fluxo das telas torna mais raro: tempo, sil\u00eancio, continuidade e imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Fontes consultadas<\/h2>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/www.publishnews.com.br\/materias\/2026\/08\/31\/apanhadao-o-impacto-das-telas-no-habito-da-leitura-dos-jovens\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Apanhad\u00e3o: o impacto das telas no h\u00e1bito da leitura dos jovens<\/a> \u2014 PublishNews (31\/08\/2026)<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/educacao\/2026\/08\/telas-atrapalham-mas-nao-definem-habito-de-leitura-de-criancas-e-adolescentes.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Telas atrapalham, mas n\u00e3o definem h\u00e1bito de leitura de crian\u00e7as e adolescentes<\/a> \u2014 Folha de S.Paulo (29\/08\/2026)<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.oecd.org\/content\/dam\/oecd\/en\/publications\/reports\/2025\/09\/the-impact-of-digital-technologies-on-students-learning_14095366\/9997e7b3-en.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">The Impact of Digital Technologies on Students\u2019 Learning<\/a> \u2014 OCDE (2025)<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.oecd.org\/en\/publications\/does-the-digital-world-open-up-an-increasing-divide-in-access-to-print-books_54f9d8f7-en.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Does the digital world open up an increasing divide in access to print books?<\/a> \u2014 OCDE (12\/07\/2022)<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/periodicos.sbu.unicamp.br\/ojs\/index.php\/etd\/article\/view\/761\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leitura nas telas: os jovens na internet<\/a> \u2014 ETD \u2014 Educa\u00e7\u00e3o Tem\u00e1tica Digital, Universidade Estadual de Campinas (Junho de 2004)<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/fundacaoitau.org.br\/observatorio\/biblioteca\/retratos-da-leitura-no-brasil-6-edicao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">6\u00aa edi\u00e7\u00e3o da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil<\/a> \u2014 Instituto Pr\u00f3-Livro; Funda\u00e7\u00e3o Ita\u00fa; Minist\u00e9rio da Cultura (2024)<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"perse-post-category\"><a href=\"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/category\/literatura-e-cultura\/\">Literatura &amp; Cultura<\/a><\/div>\n<p>Entenda como as telas influenciam a leitura juvenil e por que fam\u00edlia, acesso aos livros e escolha das obras tamb\u00e9m formam novos leitores.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":200,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-201","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura-e-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=201"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":234,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/201\/revisions\/234"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.perse.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}